Os escolásticos chamam de materia, de maneira geral, o que Aristóteles havia chamado ὕλη; esta materia, como já dissemos, não deve de modo algum ser identificada com a “matéria” dos modernos, cuja noção complexa, e mesmo contraditória por certos lados, parece ter sido tão estranha aos antigos do Ocidente quanto o é aos orientais; mesmo que se admita que ela possa tornar-se essa “matéria” em certos casos particulares, ou melhor, para falar com mais exatidão, que se possa fazer caber nela a posteriori essa concepção mais recente, ela é também muitas outras coisas ao mesmo tempo, e são essas coisas diversas que devemos ter o cuidado de distinguir primeiramente; mas, para designá-las todas juntas por uma denominação comum como as de ὕλη e de materia, não dispomos, nas línguas ocidentais atuais, de melhor termo que o de “substância”. Antes de tudo, a ὕλη, enquanto princípio universal, é a potência pura, onde não há nada de distinguido nem de “atualizado”, e que constitui o “suporte” passivo de toda manifestação; é portanto, nesse sentido, Prakriti ou a substância universal, e tudo o que dissemos a respeito desta aplica-se igualmente à ὕλη assim entendida¹. Quanto à substância tomada em sentido relativo, como sendo o que representa analogicamente o princípio substancial e desempenha o seu papel em relação a uma certa ordem de existência mais ou menos estritamente delimitada, é também ela que é chamada secundariamente ὕλη, notadamente na correlação desse termo com εἶδος para designar os dois lados essencial e substancial das existências particulares.
Os escolásticos, após Aristóteles, distinguem esses dois sentidos ao falarem de materia prima e de materia secunda; podemos portanto dizer que a sua materia prima é a substância universal, e que a sua materia secunda é a substância no sentido relativo; mas como, assim que se entra no relativo, os termos tornam-se suscetíveis de aplicações múltiplas a graus diferentes, acontece que o que é materia em certo nível pode tornar-se forma em outro nível e inversamente, segundo a hierarquia dos graus mais ou menos particularizados que se consideram na existência manifestada. Em todos os casos, uma materia secunda, embora constitua o lado potencial de um mundo ou de um ser, nunca é potência pura; só há potência pura na substância universal, que não se situa apenas abaixo do nosso mundo (substantia, de sub stare, é literalmente “o que se mantém debaixo”, o que também expressam as ideias de “suporte” e de “substrato”), mas abaixo do conjunto de todos os mundos ou de todos os estados que estão compreendidos na manifestação universal. Acrescentemos que, precisamente por ser apenas potencialidade absolutamente “indistinguível” e indiferenciada, a substância universal é o único princípio que pode ser dito propriamente “ininteligível”, não porque sejamos incapazes de conhecê-la, mas porque efetivamente não há nada a conhecer nela; quanto às substâncias relativas, na medida em que participam da potencialidade da substância universal, participam também da sua “ininteligibilidade” em proporção correspondente. Não é portanto do lado substancial que se deve buscar a explicação das coisas, mas bem ao contrário do lado essencial, o que se poderia traduzir em termos de simbolismo espacial dizendo que toda explicação deve proceder de cima para baixo e não de baixo para cima; e esta observação é particularmente importante para nós, pois dá imediatamente a razão pela qual a ciência moderna é na realidade desprovida de todo valor explicativo.
Antes de prosseguir, devemos notar desde já que a “matéria” dos físicos não pode em todo caso ser senão uma materia secunda, uma vez que a supõem dotada de certas propriedades sobre as quais não se concordam aliás inteiramente, de modo que não há nela apenas potencialidade e “indistinção”; além disso, como as suas concepções se referem apenas ao único mundo sensível e não vão além, nada teriam que fazer com a consideração da materia prima. Todavia, por uma estranha confusão, falam a cada instante de “matéria inerte”, sem se aperceberem de que, se ela fosse realmente inerte, estaria desprovida de toda propriedade e de modo algum se manifestaria, de sorte que não seria absolutamente nada do que os seus sentidos podem perceber, enquanto que ao contrário declaram “matéria” tudo o que cai sob os seus sentidos; na realidade, a inércia só pode convenir à única materia prima, porque é sinônimo de passividade ou de potencialidade pura. Falar de “propriedades da matéria” e afirmar ao mesmo tempo que “a matéria é inerte”, eis aí uma contradição insolúvel; e, curiosa ironia das coisas, o “cientismo” moderno, que tem a pretensão de eliminar todo “mistério”, não apela contudo, nas suas vãs tentativas de explicação, senão ao que há de mais “misterioso” no sentido vulgar dessa palavra, isto é, de mais obscuro e de menos inteligível!
Agora, pode-se perguntar se, deixando de lado a pretendida “inércia da matéria” que não passa de uma absurdo, essa mesma “matéria”, dotada de qualidades mais ou menos bem definidas que a tornariam suscetível de se manifestar aos nossos sentidos, é a mesma coisa que a materia secunda do nosso mundo tal como a entendem os escolásticos. Pode-se já suspeitar que tal assimilação seria inexata se se reparar apenas que, para desempenhar em relação ao nosso mundo um papel análogo ao da materia prima ou da substância universal em relação a toda manifestação, a materia secunda em questão não deve de modo algum ser manifestada neste mesmo mundo, mas apenas servir de “suporte” ou de “raiz” ao que nele se manifesta, e que, consequentemente, as qualidades sensíveis não lhe podem ser inerentes, mas procedem ao contrário de “formas” recebidas nela, o que equivale ainda a dizer que tudo o que é qualidade deve em última instância ser referido à essência. Vê-se portanto aparecer aqui uma nova confusão: os físicos modernos, no seu esforço para reduzir a qualidade à quantidade, chegam, por uma espécie de “lógica do erro”, a confundir uma e outra, e em seguida a atribuir a própria qualidade à sua “matéria” como tal, na qual acabam assim por colocar toda a realidade, ou pelo menos tudo o que são capazes de reconhecer como realidade, o que constitui o “materialismo” propriamente dito.
A materia secunda do nosso mundo não deve contudo ser desprovida de toda determinação, pois, se o fosse, confundiria-se com a própria materia prima na sua completa “indistinção”; e, por outro lado, ela não pode ser uma materia secunda qualquer, mas deve ser determinada em acordo com as condições especiais deste mundo, e de tal maneira que seja efetivamente em relação a este que ela seja apta a desempenhar o papel de substância, e não em relação a qualquer outra coisa. É preciso portanto precisar a natureza dessa determinação, e é o que faz são Tomás de Aquino ao definir essa materia secunda como materia signata quantitate; o que lhe é inerente e a faz ser o que é, não é portanto a qualidade, mesmo considerada apenas na ordem sensível, mas é ao contrário a quantidade, que é bem assim ex parte materiæ. A quantidade é uma das próprias condições da existência no mundo sensível ou corpóreo; é mesmo, entre essas condições, uma daquelas que são mais exclusivamente próprias deste, e assim, como se poderia de resto esperar, a definição da materia secunda em questão não pode concerner outra coisa senão este mundo, mas ela o concerne todo inteiro, pois tudo o que nele existe é necessariamente submetido à quantidade; esta definição é portanto plenamente suficiente, sem que haja lugar de atribuir a essa materia secunda, como se fez para a “matéria” moderna, propriedades que não lhe podem de modo algum pertencer na realidade. Pode-se dizer que a quantidade, constituindo propriamente o lado substancial do nosso mundo, é por assim dizer a condição “básica” ou fundamental dele; mas é preciso bem guardar-se de lhe dar por isso uma importância de outra ordem que aquela que ela tem realmente, e sobretudo de querer dela tirar a explicação deste mundo, assim como é preciso guardar-se de confundir o fundamento de um edifício com o seu cume: enquanto só há o fundamento, ainda não há edifício, embora este fundamento lhe seja indispensável, e do mesmo modo, enquanto só há a quantidade, ainda não há manifestação sensível, embora esta tenha nela a sua própria raiz. A quantidade, reduzida a si mesma, não é senão uma “pressuposição” necessária, mas que não explica nada; é bem uma base, mas não é nada mais, e não se deve esquecer que a base, por definição mesma, é o que está situado no nível mais inferior; assim, a redução da qualidade à quantidade não é outra coisa em fundo senão essa “redução do superior ao inferior” pela qual alguns quiseram muito justamente caracterizar o materialismo: pretender fazer sair o “mais” do “menos”, eis aí, de fato, uma das mais típicas de todas as aberrações modernas!
Outra questão ainda se coloca: a quantidade apresenta-se-nos sob modos diversos, e, notadamente, há a quantidade descontínua, que é propriamente o número², e a quantidade contínua, que é representada principalmente pelas grandezas de ordem espacial e temporal; qual é, entre esses modos, aquele que constitui mais precisamente o que se pode chamar de quantidade pura? Esta questão tem também a sua importância, tanto mais que Descartes, que se encontra no ponto de partida de boa parte das concepções filosóficas e científicas especificamente modernas, quer definir a matéria pela extensão, e fazer dessa própria definição o princípio de uma física quantitativa que, se ainda não é o “materialismo”, é pelo menos o “mecanicismo”; poder-se-ia ser tentado a concluir daí que é a extensão que, sendo diretamente inerente à matéria, representa o modo fundamental da quantidade. Por outro lado, são Tomás de Aquino, ao dizer que “numerus stat ex parte materiæ“, parece antes sugerir que é o número que constitui a base substancial deste mundo, e que é ele, consequentemente, que deve ser considerado verdadeiramente como a quantidade pura; este caráter “básico” do número acorda-se aliás perfeitamente com o fato de que, na doutrina pitagórica, é ele que, por analogia inversa, é tomado como símbolo dos princípios essenciais das coisas. É preciso notar aliás que a matéria de Descartes já não é mais a materia secunda dos escolásticos, mas que é já um exemplo, e talvez o primeiro em data, de uma “matéria” de físico moderno, embora ainda não tenha posto nessa noção tudo o que os seus sucessores deverão introduzir pouco a pouco para chegar às teorias mais recentes sobre a “constituição da matéria”. Há portanto lugar de suspeitar que pode haver, na definição cartesiana da matéria, algum erro ou alguma confusão, e que deve ter já se infiltrado ali, talvez à revelia do seu autor, um elemento que não é de ordem puramente quantitativo; e de fato, como veremos a seguir, a extensão, embora tenha evidentemente um caráter quantitativo, como aliás tudo o que pertence ao mundo sensível, não poderia contudo ser considerada como quantidade pura. Além disso, pode-se notar também que as teorias que vão mais longe no sentido da redução ao quantitativo são geralmente “atomistas”, de uma forma ou de outra, isto é, que introduzem na sua noção de matéria uma descontinuidade que a aproxima muito mais da natureza do número que da da extensão; e mesmo o fato de que a matéria corpórea não pode apesar de tudo ser concebida de outro modo senão como estendida não é para todo “atomismo” senão uma fonte de contradições. Outra causa de confusão em tudo isto, e sobre a qual teremos de voltar, é o hábito que se tomou de considerar “corpo” e “matéria” como quase sinônimos; na realidade, os corpos não são de modo algum a materia secunda, que não se encontra em parte alguma nas existências manifestadas neste mundo, mas eles dela procedem apenas como do seu princípio substancial. Em última instância, é bem o número, que também nunca é percebido diretamente e em estado puro no mundo corpóreo, que deve ser considerado em primeiro lugar no domínio da quantidade, como constituindo o seu modo fundamental; os outros modos não são senão derivados, isto é, não são de certo modo quantidade senão por participação no número, o que se reconhece aliás implicitamente quando se considera, como de fato sempre se faz, que tudo o que é quantitativo deve poder exprimir-se numericamente. Nesses outros modos, a quantidade, mesmo que seja o elemento predominante, aparece sempre como mais ou menos misturada de qualidade, e é assim que as concepções do espaço e do tempo, apesar de todos os esforços dos matemáticos modernos, nunca poderão ser exclusivamente quantitativas, a menos que se consinta em reduzi-las a noções inteiramente vazias, sem qualquer contacto com uma realidade qualquer; mas, a dizer verdade, a ciência atual não é feita em grande parte dessas noções vazias, que já só têm o caráter de “convenções” sem a menor eficácia efetiva? Explicar-nos-emos mais completamente sobre esta última questão, sobretudo no que concerne à natureza do espaço, pois este ponto tem uma relação estreita com os princípios do simbolismo geométrico, e, ao mesmo tempo, fornece um excelente exemplo da degenerescência que conduz das concepções tradicionais às concepções profanas; e chegaremos a isso examinando primeiro de que modo a ideia da “medida”, sobre a qual repousa a própria geometria, é, tradicionalmente, suscetível de uma transposição que lhe dá um sentido inteiramente outro que aquele que tem para os sábios modernos, que não vêem nela em suma senão o meio de se aproximarem o mais possível do seu “ideal” a contrapelo, isto é, de operarem pouco a pouco a redução de todas as coisas à quantidade.
Notas
¹ Notemos que o sentido primeiro da palavra ὕλη se refere ao princípio vegetativo; há aí uma alusão à “raiz” (em sânscrito mūla, termo aplicado a Prakriti) a partir da qual se desenvolve a manifestação; e pode-se também ver aí uma certa relação com o que a tradição hindu diz da natureza “asúrica” do vegetal, que efetivamente mergulha pelas suas raízes no que constitui o suporte obscuro do nosso mundo; a substância é de certo modo o pólo tenebroso da existência, como se verá melhor ainda a seguir.
² A noção pura do número é essencialmente a do número inteiro, e é evidente que a sucessão dos números inteiros constitui uma série descontínua; todas as extensões que essa noção recebeu, e que deram lugar à consideração dos números fracionários e dos números incomensuráveis, são de verdadeiras alterações, e elas não representam na realidade senão os esforços que foram feitos para reduzir tanto quanto possível os intervalos do descontínuo numérico, a fim de tornar menos imperfeita a sua aplicação à medida das grandezas contínuas.