Ficamos um tanto surpresos ao ler recentemente, em uma nota dedicada aos nossos Aperçus sur l’Initiation, a seguinte frase, apresentada de tal maneira que se poderia acreditar que ela resume, de alguma forma, o que nós mesmos dissemos nesse livro: “A iniciação, certamente, não dispensa nem a meditação nem o estudo, mas ela coloca o adepto em um plano particular; ela o põe em contato com a egrégora de uma organização iniciática, emanada ela própria da egrégora suprema de uma iniciação universal, una e multiforme”. Não insistiremos sobre o uso abusivo que se faz aqui da palavra “adepto”, embora, depois de o termos denunciado expressamente ao explicar o verdadeiro significado desse termo, seja permitido se espantar com isso; da iniciação propriamente dita ao adeptado, maior ou mesmo menor, o caminho é longo… Mas o que importa mais é o seguinte: como, na nota em questão, não se faz a menor alusão, além disso, ao papel das influências espirituais, parece haver aí um equívoco bastante grave, que outros podem, aliás, ter cometido igualmente, a despeito de todo o cuidado que tomamos para expor as coisas tão claramente quanto possível, pois parece decididamente que é, com frequência, muito difícil se fazer compreender exatamente. Pensamos, portanto, que um esclarecimento não será inútil; essas precisões, de resto, darão sequência de modo bastante natural às que fornecemos, em nossos últimos artigos, em resposta às diversas questões que nos foram colocadas a respeito da filiação iniciática.
Antes de tudo, devemos fazer notar que nunca empregamos a palavra “egrégora” para designar o que se pode chamar propriamente de uma “entidade coletiva”; e a razão para isso é que, nessa acepção, trata-se de um termo que não tem nada de tradicional e que representa apenas uma das numerosas fantasias da moderna linguagem ocultista. O primeiro a tê-lo empregado assim foi Éliphas Lévi e, se nossas lembranças estão corretas, foi mesmo ele quem, para justificar esse sentido, deu-lhe uma etimologia latina inverossímil, fazendo-o derivar de grex, “rebanho”, ao passo que essa palavra é puramente grega e nunca significou, na realidade, outra coisa senão “vigia”. Sabe-se, aliás, que esse termo se encontra no Livro de Enoque, onde designa entidades de um caráter bastante enigmático, mas que, em todo caso, parecem pertencer ao “mundo intermediário”; é aí tudo o que elas têm em comum com as entidades coletivas às quais se pretendeu aplicar o mesmo nome. Estas, com efeito, são de ordem essencialmente psíquica, e é aí, sobretudo, que reside a gravidade do equívoco que assinalamos, pois, a esse respeito, a frase que destacamos nos aparece, em suma, como um novo exemplo da confusão entre o psíquico e o espiritual.
De fato, falamos dessas entidades coletivas e pensamos ter precisado suficientemente seu papel quando, a propósito das organizações tradicionais, religiosas ou outras, que pertencem ao domínio que pode ser dito exotérico, no sentido mais amplo dessa palavra, para distingui-lo do domínio iniciático, escrevemos o seguinte: “Pode-se considerar cada coletividade como dispondo de uma força de ordem sutil constituída de alguma forma pelas contribuições de todos os seus membros passados e presentes, e que, por conseguinte, é tanto mais considerável e suscetível de produzir efeitos tanto mais intensos quanto a coletividade é mais antiga e se compõe de um maior número de membros; é, aliás, evidente que essa consideração ‘quantitativa’ implica essencialmente que se trata do domínio individual, para além do qual ela não poderia mais intervir de modo algum”¹. Lembraremos, de resto, a esse propósito, que o coletivo, em tudo o que o constitui, tanto psiquicamente quanto corporalmente, não é outra coisa senão uma simples extensão do individual, e que, por conseguinte, ele não tem absolutamente nada de transcendente em relação a este, contrariamente às influências espirituais que são de uma ordem totalmente diferente; não se deve, diremos retomando os termos habituais do simbolismo geométrico, confundir o sentido horizontal com o sentido vertical. Isso nos leva a responder incidentalmente a uma outra questão que ainda nos foi colocada e que não deixa de ter relação com o que estamos considerando no momento: seria um erro considerar como um estado supra individual aquele que resultaria da identificação com uma entidade psíquica coletiva qualquer que seja, assim como, aliás, com qualquer outra entidade psíquica; a participação em tal entidade coletiva, em um grau qualquer, pode muito bem ser considerada, se quisermos, como constituindo uma espécie de “ampliação” da individualidade, mas nada mais. Por isso, é unicamente para obter certas vantagens de ordem individual que os membros de uma coletividade podem utilizar a força sutil de que esta dispõe, conformando-se às regras estabelecidas para esse fim pela coletividade em questão; e, mesmo se, para a obtenção dessas vantagens, houver, além disso, intervenção de uma influência espiritual, como ocorre notadamente em um caso como o das coletividades religiosas, essa influência espiritual, não agindo então em seu domínio próprio que é de ordem supra individual, deve ser considerada, como já dissemos igualmente, como “descendo” ao domínio individual e aí exercendo sua ação por meio da força coletiva na qual ela toma seu ponto de apoio. É por isso que a prece, conscientemente ou não, se dirige da maneira mais imediata à entidade coletiva, e é somente por intermédio desta que ela se dirige também à influência espiritual que age através dela; as condições colocadas para sua eficácia pela organização religiosa não poderiam, aliás, explicar-se de outro modo.
O caso é completamente diferente no que diz respeito às organizações iniciáticas, pela própria razão de que estas, e somente estas, têm por objetivo essencial ir além do domínio individual, e que mesmo o que nelas se relaciona mais diretamente a um desenvolvimento da individualidade constitui, em definitivo, apenas um estágio preliminar para chegar finalmente a ultrapassar as limitações desta. É evidente que essas organizações também comportam, como todas as outras, um elemento psíquico que pode desempenhar um papel efetivo sob certos aspectos, por exemplo, para estabelecer uma “defesa” em relação ao mundo exterior e para proteger os membros de tal organização contra certos perigos vindos deste, pois é evidente que não é por meios de ordem espiritual que resultados semelhantes podem ser obtidos, mas somente por meios que estão de algum modo no mesmo nível daqueles de que pode dispor esse mundo exterior; mas trata-se aí de algo muito secundário e puramente contingente, que nada tem a ver com a iniciação em si mesma. Esta é inteiramente independente da ação de uma força física qualquer, pois ela consiste própria e essencialmente na transmissão direta de uma influência espiritual, que deve produzir, de maneira imediata ou diferida, efeitos relevantes igualmente da própria ordem espiritual, e não mais de uma ordem inferior como no caso de que falamos precedentemente, de sorte que não é mais por intermédio de um elemento psíquico que ela deve agir aqui. Portanto, não é enquanto simples coletividade que se deve considerar uma organização iniciática como tal, pois não é de modo algum aí que se encontra aquilo que lhe permite cumprir a função que é toda a sua razão de ser: a coletividade, sendo em suma apenas uma reunião de indivíduos, não pode, por si mesma, produzir nada que seja de ordem supra individual, não podendo o superior, em nenhum caso, proceder do inferior; se a filiação a uma organização iniciática pode ter efeitos dessa ordem, é unicamente na medida em que ela é depositária de algo que é ele próprio supra individual e transcendente em relação à coletividade, isto é, de uma influência espiritual cuja conservação e transmissão ela deve assegurar sem nenhuma descontinuidade. A filiação iniciática não deve, pois, ser concebida como a filiação a uma “egrégora” ou a uma entidade psíquica coletiva, pois isso não passa, em todo caso, de um aspecto completamente acidental, e pelo qual as organizações iniciáticas em nada diferem das organizações exotéricas; o que constitui essencialmente a “cadeia”, repetimo-lo ainda, é a transmissão ininterrupta da influência espiritual através das gerações sucessivas². Da mesma forma, o elo entre as diferentes formas iniciáticas não é uma simples filiação de “egrégoras”, como poderia fazer crer a frase que foi o ponto de partida destas reflexões; ele resulta, na realidade, da presença, em todas essas formas, de uma mesma influência espiritual, una quanto à sua essência e quanto aos fins em vista dos quais ela age, senão quanto às modalidades mais ou menos especiais segundo as quais sua ação se exerce; e é somente por aí que se estabelece, de umas para as outras e em graus diversos, uma comunicação, efetiva ou virtual conforme os casos, com o centro espiritual supremo.
A essas considerações, acrescentaremos uma outra observação que também tem sua importância sob o mesmo ponto de vista: é que, quando uma organização iniciática se encontra em um estado de degenerescência mais ou menos acentuado, embora a influência espiritual esteja sempre presente, sua ação fica necessariamente diminuída, e então, em contrapartida, as influências psíquicas podem agir de modo mais aparente e por vezes quase independente. O caso extremo a esse respeito é aquele em que, tendo uma forma iniciática deixado de existir como tal e a influência espiritual se retirado inteiramente por isso mesmo, as influências psíquicas subsistem sozinhas no estado de “resíduos” nocivos e mesmo particularmente perigosos, como explicamos alhures³. Fica bem entendido que, enquanto a Iniciação existir realmente, mesmo que esteja reduzida a não poder mais ser senão puramente virtual, as coisas não poderão chegar a esse ponto; mas não é menos verdade que uma preponderância maior ou menor assumida pelas influências psíquicas em uma forma iniciática constitui um sinal desfavorável quanto ao estado atual desta, e isso mostra ainda o quanto aqueles que querem atribuir a própria iniciação a influências dessa ordem estão longe da verdade.
¹ Aperçus sur l’Initiation, cap. XXIV.
² Ao dizermos aqui “gerações”, não tomamos essa palavra apenas em seu sentido exterior e de certo modo “material”, mas pretendemos sobretudo fazer alusão, com isso, ao caráter de “segundo nascimento” que é inerente à iniciação.
³ Le Règne de la quantité et les signes des Temps, cap. XXVII.