O SAG(rado), ao invés de ser preservado como um portal para a transcendência, é massivamente reduzido a uma caricatura. Aleister Crowley, cuja imagem e ideias, questionáveis em sua origem, foram transfiguradas pela cultura pop em um espetáculo de larga superfície, sem profundidade nenhuma. Crowley é celebrado como ícone da contracultura, inspirando músicos, cineastas e os variados artistas, entretanto, o que celebram não é o que ele realmente era, ou sequer pretendia ser, mas uma versão distorcida, moldada pelo imaginário coletivo (se é que se pode chamar de imaginário) de uma modernidade que se deleita com a rebeldia. Afinal, a ignorância inerente impede que se reflitam em outra coisa. Essa redução opera pelo que René Guénon chama de “solidificação” do símbolo: a perda de seu sentido supra individual para se tornar um mero significante ao serviço da psique coletiva.¹ Não é por acaso que ele é lembrado mais como “A Grande Besta 666” e quase nada por seus experimentos espirituais ou literários, é mais fácil vender um símbolo de transgressão do que fornecer ou transmitir uma reflexão sobre seus verdadeiros desdobramentos espirituais. O epíteto “A Grande Besta”, retirado do Apocalipse de João, é um arquétipo de oposição frontal a um centro espiritual que, no entanto, a cultura de massa consome como se fosse um mero título de marketing rebelde.² Crowley representa um fenômeno comum da decadência moderna: a inversão dos princípios; sua obra, que mistura fragmentos de esoterismo e práticas “mágicas” autossuficientes, ignora princípios metafísicos que fundamentam toda autêntica realização espiritual. Em vez de buscar a integração com a Verdade, Crowley parecia mais interessado em afirmar o ego e explorar os reinos psíquicos inferiores e perigosos por sua natureza desordenada. Guénon distinguiria aqui o domínio psíquico (horizontal, individual e cheio de formas errantes) do domínio espiritual (vertical, supra racional e orientado ao Princípio). A confusão entre ambos é a marca da contra-iniciação.³ “Quem sou eu e qual será o sinal?”⁴
Analisamos o uso da figura de Crowley como produto da cultura de massa. Ele foi estampado em capas de álbuns, citado em letras de músicas e transformado em vilão de filmes e séries. Sua aparição na capa do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, foi um marco dessa canonização pop.⁵ Sua filosofia foi reinterpretada como um grito de liberdade individualista em sintonia com o espírito de uma época confusa que pensa que autonomia é egoísmo. O resultado é a dessacralização completa de símbolos que em um contexto tradicional, jamais deveriam ser vulgarizados, afinal, “manter silêncio” não é uma das virtude do caminho? O que faz a modernidade insistir em celebrar figuras como Crowley? A resposta pode ser encontrada no próprio ethos dessa era contemporânea.
Na ausência de uma conexão real com a transcendência, a sociedade busca no espetáculo, e em personagens como Crowley, um substituto que forneça uma ilusão de profundidade. É a era do que Guénon diagnosticou como o “reino da quantidade”, onde tudo, incluindo o espiritual, é nivelado à pura medida numérica e ao efeito psicológico.⁶ O problema é que tal ilusão é, por definição, superficial. Nessa busca por transgressão, a cultura pop transformou Crowley em uma espécie de santo padroeiro da rebeldia. Contudo, é necessário questionar: rebeldia contra o quê? Sem um propósito real ou uma orientação metafísica, o desafio às normas se torna vazio, uma revolta pela revolta, sem a qualificação necessária para transmutar ou retificar. A ideia aqui é compreender o que Crowley simboliza no contexto da modernidade e discernir os perigos que tal simbolismo pode trazer. O perigo não é o de uma influência satânica direta, mas a disseminação de uma atitude de “falsa libertação” que, ao negar toda submissão a uma autoridade espiritual legítima, aprisiona o ser na esfera desequilibrada do ego.⁷ Esoterismo em essência, é um o caminho interior de realização e reintegração ao eterno, algo que a figura de qualquer humano jamais poderá oferecer. Se a figura rebelde de Crowley persiste na cultura popular, isso diz mais sobre o estado espiritual do mundo moderno do que sobre sua relevância, a cultura pop o abraça porque ele simboliza algo que todos parecem desejar hoje em dia: a liberdade sem responsabilidade, a mística sem disciplina e a realização sem esforço. Talvez Crowley tenha servido a um propósito importante: nos lembrar de que o verdadeiro esoterismo é uma questão de realização interior.
Se você acha que o legado de Crowley é profundo… bem, talvez seja hora de ler ou ler novamente René Guénon, e com sorte ele terá alguma paciência com você. Como obra introdutória ao pensamento guenoniano sobre a crise moderna, “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” permanece insuperável.⁸
Notas:¹ Cf. GUÉNON, René. Símbolos Fundamentais da Ciência Sagrada. Em especial, os capítulos iniciais sobre a natureza do símbolo e sua degradação.
² Ver Apocalipse 13. Para Guénon, a designação “Besta” refere-se, em chave metafísica, a uma força de oposição consciente ao “Centro do Mundo” em determinados ciclos históricos. Cf. GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, cap. XXIV: “Rumo à dissolução”.
³ GUÉNON, René. O Erro dos Psicólogos. In: Estudos sobre o Esoterismo Cristão.
⁴ A pergunta ecoa a busca iniciática por um “nome” e um “sinal” que representem a essência e a missão verdadeiras de um ser, em oposição à persona pública.
⁵ A icônica colagem de Peter Blake incluiu Crowley entre figuras como Carl Jung e Bob Dylan, um gesto que diluiu seu ocultismo em um panteão de celebridades culturais, marcando o início de sua assimilação pop.
⁶ GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. Obra inteira.
⁷ GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, cap. XXXVIII: “A falsa libertação”.
⁸ GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. Para uma abordagem mais centrada na Tradição, A Crise do Mundo Moderno é um ponto de partida complementar.