O Neoespiritualismo

Acabamos de falar daqueles que, desejando reagir contra a desordem atual, mas não possuindo conhecimento suficiente para fazê-lo de modo eficaz, acabam de certa forma “neutralizados” e direcionados para vias sem saída. No entanto, além deles, há também aqueles a quem é, ao contrário, demasiado fácil empurrar ainda mais pelo caminho que leva à subversão. No estado atual das coisas, o pretexto que lhes é dado é quase sempre o de “combater o materialismo”, e certamente a maioria acredita nisso sinceramente. Mas, enquanto os primeiros, se também desejam agir nesse sentido, acabam apenas nas banalidades de uma vaga filosofia “espiritualista” sem qualquer alcance real – porém, pelo menos, quase inofensiva , estes últimos são orientados para o domínio das piores ilusões psíquicas, o que é muito mais perigoso.

Com efeito, se os primeiros são todos, mais ou menos sem o saberem, afetados pelo espírito moderno – embora não de forma suficientemente profunda para ficarem totalmente cegos, aqueles de que tratamos agora estão completamente impregnados por ele e, aliás, geralmente se orgulham de ser “modernos”. A única coisa que lhes repugna, entre as diversas manifestações desse espírito, é o materialismo, e estão tão fascinados por essa única ideia que nem sequer percebem que muitas outras coisas como a ciência e a indústria que tanto admiram são, por suas origens e por sua própria natureza, estritamente dependentes desse mesmo materialismo que lhes causa horror.

É fácil compreender, portanto, por que tal atitude deve agora ser encorajada e difundida: eles são os melhores auxiliares inconscientes que se pode encontrar para a segunda fase da ação anti tradicional. Tendo o materialismo praticamente terminado de desempenhar seu papel, são eles que espalharão pelo mundo o que deve sucedê-lo. E serão até mesmo utilizados para ajudar ativamente a abrir as “fissuras” de que falávamos anteriormente, pois, nesse domínio, já não se trata apenas de “ideias” ou teorias quaisquer, mas também, simultaneamente, de uma “prática” que os coloca em contato direto com as forças sutis da ordem mais inferior. Eles se prestam a isso tanto mais voluntariamente quanto estão completamente iludidos sobre a verdadeira natureza dessas forças, chegando mesmo a atribuir-lhes um caráter “espiritual”.

É isso o que chamamos, de modo geral, de “neoespiritualismo“, para distingui-lo do simples “espiritualismo” filosófico. Poderíamos quase nos contentar em mencioná-lo aqui “para registro”, uma vez que já dedicamos estudos específicos a duas de suas formas mais difundidas*. No entanto, ele constitui um elemento demasiado importante entre os que são especialmente característicos da época contemporânea para que nos abstenhamos de relembrar pelo menos seus traços principais, reservando para outro momento o aspecto “pseudo-iniciático” que reveste a maioria das escolas a ele ligadas (excetuando, porém, as escolas espíritas, que são abertamente profanas o que, aliás, é exigido pelas necessidades de sua extrema “vulgarização”), pois teremos de retornar particularmente a isso mais adiante.

Antes de tudo, é preciso notar que não se trata de um conjunto homogêneo, mas de algo que assume uma infinidade de formas diversas, embora tudo isso apresente sempre características comuns suficientes para poder ser reunido legitimamente sob uma mesma denominação. O mais curioso, porém, é que todos os agrupamentos, escolas e “movimentos” desse tipo estão constantemente em competição e até em luta uns contra os outros, a ponto de ser difícil encontrar, a não ser talvez entre os “partidos” políticos, ódios mais violentos do que os que existem entre seus respectivos adeptos. E isso apesar de, por uma singular ironia, toda essa gente ter a mania de pregar a “fraternidade” a todo momento e fora de propósito! Há aí algo verdadeiramente “caótico”, que pode dar mesmo a observadores superficiais a impressão de desordem levado ao extremo. E, de fato, isso é um claro indício de que esse “neoespiritualismo” representa uma etapa já bastante avançada no caminho da dissolução.

Por outro lado, o “neoespiritualismo”, apesar da aversão que demonstra em relação ao materialismo, ainda se assemelha a ele em mais de um aspecto, a tal ponto que se pôde usar com bastante justeza, a esse respeito, a expressão “materialismo transposto”  isto é, em suma, estendido para além dos limites do mundo corpóreo. O que mostra isso muito claramente são essas representações grosseiras do mundo sutil e supostamente “espiritual” às quais já aludimos anteriormente, e que são quase inteiramente feitas de imagens emprestadas do domínio corpóreo.

Esse mesmo “neoespiritualismo” também se liga às etapas anteriores do desvio moderno de uma maneira mais efetiva, por meio do que se pode chamar de seu lado “cientifista”. Isso também já assinalamos ao falar da influência exercida sobre suas diversas escolas pela “mitologia” científica da época em que elas surgiram. E é preciso notar especialmente o papel considerável que desempenham em suas concepções, de modo absolutamente geral e sem exceção, as ideias “progressistas” e “evolucionistas”, que são uma das marcas mais típicas da mentalidade moderna e que, por si sós, bastariam para caracterizar essas concepções como um dos produtos mais incontestáveis dessa mentalidade.

Acrescentemos que mesmo aquelas escolas que afetam um ar “arcaico”, utilizando à sua maneira fragmentos de ideias tradicionais incompreendidas e deformadas, ou disfarçando, quando necessário, ideias modernas sob um vocabulário emprestado de alguma forma tradicional oriental ou ocidental (coisas que, aliás, estão em contradição formal com sua crença no “progresso” e na “evolução”), estão constantemente preocupadas em harmonizar essas ideias antigas ou supostamente tais com as teorias da ciência moderna. Tal trabalho, aliás, precisa ser refeito incessantemente à medida que essas teorias mudam. Mas é preciso dizer que aqueles que se dedicam a isso têm sua tarefa simplificada pelo fato de se limitarem quase sempre ao que se pode encontrar nas obras de “vulgarização”.

Além disso, o “neoespiritualismo”, por meio da parte que qualificamos de “prática”, também está muito de acordo com as tendências “experimentais” da mentalidade moderna. E é por aí que ele acaba exercendo pouco a pouco uma influência sensível sobre a própria ciência, infiltrando-se nela, de certo modo, por meio do que se chama de “metapsíquica”. Sem dúvida, os fenômenos a que esta se refere merecem, em si mesmos, ser estudados tanto quanto os de ordem corpórea. Mas o que suscita objeção é a maneira como ela pretende estudá-los, aplicando-lhes o ponto de vista da ciência profana. Físicos (que teimam em usar seus métodos quantitativos a ponto de querer tentar “pesar a alma”!) e mesmo psicólogos, no sentido “oficial” da palavra, estão certamente tão mal preparados quanto possível para um estudo desse tipo e, por isso mesmo, mais suscetíveis do que qualquer outro a se deixarem iludir de todas as maneiras**.

Há ainda algo mais: na prática, as pesquisas “metapsíquicas” quase nunca são empreendidas de forma independente de qualquer apoio por parte dos “neoespiritualistas”, e sobretudo dos espíritas, o que prova que estes, em última análise, pretendem fazê-las servir à sua “propaganda”. E o que é talvez mais grave a esse respeito é que os experimentadores são colocados em condições tais que se veem obrigados a recorrer a “médiuns” espíritas isto é, a indivíduos cujas ideias preconcebidas modificam sensivelmente os fenômenos em questão e lhes dão, por assim dizer, uma “coloração” especial, e que, além disso, foram treinados com um cuidado todo particular (uma vez que existem até “escolas de médiuns”) para servir como instrumentos e “suportes” passivos a certas influências pertencentes aos “fundos” mais baixos do mundo sutil, influências que eles “veiculam” consigo para toda parte e que não deixam de afetar perigosamente todos aqueles, cientistas ou outros, que entram em contato com eles e que, por sua ignorância do que realmente há no fundo de tudo isso, são totalmente incapazes de se defender. Não insistiremos mais nisso, pois já nos explicamos suficientemente sobre o assunto em outro lugar, e em suma só temos de remeter a essas explicações aqueles que desejassem mais desenvolvimentos a esse respeito. Mas queremos sublinhar, porque isso também é algo inteiramente peculiar à época atual, a estranheza do papel dos “médiuns” e da suposta necessidade de sua presença para a produção de fenômenos relativos à ordem sutil. Por que nada de semelhante existia antigamente, o que de modo algum impedia que as forças dessa ordem se manifestassem espontaneamente, em certas circunstâncias, com uma amplitude muito maior do que nas sessões espíritas ou “metapsíquicas” (e isso, muitas vezes, em casas desabitadas ou em lugares desertos, o que exclui a hipótese demasiado cômoda da presença de um “médium” inconsciente de suas faculdades)? Pode-se perguntar se não há realmente, desde o aparecimento do espiritismo, algo mudado no modo mesmo como o mundo sutil age em suas “interferências” com o mundo corpóreo. Isso seria, no fundo, apenas um novo exemplo dessas modificações do meio que já consideramos no que concerne aos efeitos do materialismo. Mas o que é certo, em todo caso, é que há aí algo que responde perfeitamente às exigências de um “controle” exercido sobre essas influências psíquicas inferiores, já essencialmente “maléficas” por si mesmas, para utilizá-las mais diretamente com vistas a certos fins determinados, de acordo com o “plano” preestabelecido da obra de subversão para a qual elas estão agora “desencadeadas” em nosso mundo.


Extraido de: Chapitre XXXII Le néo-spiritualisme, René Guénon – Le Règne De La Quantité Et Les Signes Des Temps, 1945 por Rene Guenon

  • O autor refere-se a seus livros “O Erro Espírita” e “O Teosofismo, História de uma Pseudo-Religião”.
  • ** “Não queremos falar apenas, nisso, da parte maior ou menor que cabe atribuir à fraude consciente e inconsciente, mas também das ilusões que recaem sobre a natureza das forças que intervêm na produção real dos chamados fenômenos ‘metapsíquicos’.”