Maio de 1933. – Rene Guenon
O termo Qabbalah, em hebraico, não significa nada além de ‘tradição’ no sentido mais geral; embora designe mais usualmente a tradição esotérica ou iniciática, quando usado de forma menos específica, também acontece por vezes que se aplica igualmente à tradição exotérica.¹ Este termo em si é, portanto, capaz de designar qualquer tradição; mas, como pertence à língua hebraica, é normal, ao usar outra língua, reservá-lo apenas à tradição hebraica, como já indicámos noutras ocasiões, ou, se quisermos falar com maior precisão, à forma especificamente hebraica da tradição. Se insistimos nisto, é porque temos visto em algumas pessoas uma tendência para atribuir outro significado a esta palavra, para a denominar como um tipo especial de conhecimento tradicional, onde quer que ele se encontre, porque acreditam ter descoberto nesta palavra todo o tipo de coisas extraordinárias que na realidade lá não estão. Não pretendemos perder o nosso tempo com todas essas interpretações fantasiosas; é mais útil especificar o verdadeiro significado original da palavra, o que basta para reduzir a nada essas interpretações, e é tudo o que nos propomos fazer aqui.
A raiz Q B L, em hebraico e em árabe,² significa essencialmente a relação de duas coisas que estão colocadas uma em frente da outra; daí provêm todos os diferentes significados das palavras que dela derivam, como, por exemplo, os de encontro e até de oposição. Desta ligação resulta também a ideia de uma passagem de um para o outro, de onde ideias como receber, acolher, aceitar, são expressas em ambas as línguas pelo verbo qabal; e qabalah deriva diretamente deste, ou seja, ‘o que é recebido’ ou transmitido (em latim traditum) de um para o outro. Vemos aqui, com esta ideia de transmissão, a de uma sucessão; deve notar-se que o significado primário da raiz indica uma relação que pode ser tanto simultânea como sucessiva, tanto espacial como temporal. Isto explica o duplo significado da preposição qabal em hebraico e qabl em árabe, que significa tanto ’em frente de’ (ou seja, ‘na face’ no espaço) como ‘antes de’ (no tempo); a estreita relação destas duas palavras ’em frente de’ e ‘antes de’, mesmo em francês, mostra que um certo paralelismo é sempre estabelecido entre estes dois modos diferentes, um em simultaneidade e outro em sucessão. Isto também nos permite resolver uma aparente contradição: embora a ideia mais comum no que respeita às relações temporais seja a de anterioridade e, portanto, relacionada com o passado, também acontece que derivados da mesma raiz designam o futuro (em árabe mustaqbal, que é literalmente dizer ‘aquilo para onde se vai’, de istiqbal, ‘ir ao encontro de’); não dizemos também em francês que o passado está atrás de nós e que o futuro está à nossa frente? Em suma, basta em todos os casos que um destes dois termos seja considerado como ‘antes’ ou ’em frente’ do outro, quer se trate de uma relação espacial quer de uma relação temporal.
Todas estas observações podem ser ainda confirmadas pelo exame de outra raiz, também comum ao hebraico e ao árabe, que tem um significado muito semelhante, poder-se-ia dizer na maior parte idêntico, embora o ponto de partida seja nitidamente diferente, mas onde os significados derivados conseguem encontrar-se. É a raiz Q D M, que exprime em primeiro lugar a ideia de ‘preceder’ (qadam), donde tudo o que se refere, não só a uma anterioridade temporal, mas a uma prioridade de qualquer ordem. Assim, encontramos, para as palavras originárias desta raiz, para além do significado de origem e antiguidade (qedem em hebraico, qidm ou qidam em árabe), o de primazia ou precedência, e até o de caminhar, avançar ou progressão (taqaddum em árabe);³ aqui, novamente, a preposição qadam em hebraico e qoddam em árabe tem o duplo significado de ’em frente de’ e ‘antes de’. Mas o significado principal aqui é o que é primário, quer hierarquicamente quer cronologicamente; daí que a ideia mais frequentemente expressa seja a de origem ou primordialidade, e, por extensão, de antiguidade quando se trata da ordem temporal: assim, qadmon em hebraico, qadim em árabe, significam ‘antigo’ no uso comum, mas quando referidos ao campo dos princípios devem ser traduzidos como ‘primordial’.⁴
É também necessário, no que diz respeito a estas mesmas palavras, apontar outras considerações que não deixam de ser interessantes: em hebraico, os derivados da raiz Q D M servem também para designar o Oriente, ou seja, o lado da ‘origem’, na medida em que é onde o sol nascente aparece (oriens, de oriri, de onde vem também origo em latim), o ponto de partida da marcha diurna do sol; ao mesmo tempo, é também o ponto que se tem em frente de si quando se ‘orienta’ voltando-se para o sol ao nascer.⁵ Assim, qedem também significa ‘Oriente’, e qadmon, ‘oriental’; mas não se deve querer ver nestas designações a afirmação de uma primordialidade do Oriente do ponto de vista da humanidade terrestre, uma vez que, como tivemos muitas vezes ocasião de dizer, a origem da tradição é nórdica, ‘polar’ mesmo, e não oriental ou ocidental. A explicação que acabámos de indicar parece-nos inteiramente suficiente. Acrescentaremos a este propósito que as questões de ‘orientação’ têm, de um modo geral, uma importância bastante grande no simbolismo tradicional e nos ritos que nele se baseiam; são mais complexas do que se possa pensar e podem dar origem a alguns mal-entendidos, uma vez que em várias formas tradicionais existem diversos modos de orientação. Quando nos viramos para o sol nascente, como acabámos de dizer, o Sul é designado como o ‘lado da direita’ (yamin ou yaman, cf. o sânscrito dakshina que tem o mesmo significado), e o Norte como o ‘lado da esquerda’ (shemol em hebraico, shimal em árabe); mas também acontece que a orientação é tomada virando-se para o sol no meridiano, e então o ponto que temos diante de nós já não é o Este, mas o Sul: é assim que em árabe, o lado sul tem, entre outras denominações, a de qiblah, e o adjetivo qibli significa ‘meridional’. Estes últimos termos levam-nos de volta à raiz Q B L; sabemos que a mesma palavra qiblah designa também no Islão a orientação ritual; é, em todos os casos, a direção que se tem em frente de si. O que é ainda curioso é que a grafia desta palavra qiblah é a mesma da palavra hebraica qabbalah.
Agora, pode colocar-se esta questão: por que razão é a tradição em hebraico designada por uma palavra proveniente da raiz Q B L, e não da raiz Q D M? Poder-se-ia ser tentado a dizer a este respeito que, uma vez que a tradição hebraica é apenas uma forma secundária e derivada, uma denominação que evoque a ideia de origem ou primordialidade não lhe pode convir; mas esta razão não nos parece essencial, porque, direta ou indiretamente, toda a tradição está ligada às origens e procede da tradição primordial, e vimos mesmo noutro lugar que toda a língua sagrada, incluindo o próprio hebraico e o árabe, é considerada representar de certa maneira a língua primordial. A verdadeira razão, parece-nos, é que a ideia que aqui deve ser posta em destaque é a de uma transmissão regular e ininterrupta, uma ideia que é o que a própria palavra ‘tradição’ exprime propriamente, como indicámos no início. Esta transmissão constitui a ‘cadeia’ (shelsheleth em hebraico, silsilah em árabe) que une o presente ao passado e deve continuar do presente para o futuro: é a ‘cadeia da tradição’ (shelsheleth ha-qabbalah), ou a ‘cadeia’ iniciática de que tivemos ocasião de falar recentemente. É também a determinação de uma ‘direção’ (encontramos aqui o significado do árabe qiblah) que, através da sucessão do tempo, dirige o ciclo para o seu fim e o reúne na sua origem, e que, estendendo-se mesmo para além destes dois pontos extremos pelo facto de a sua principal fonte ser atemporal e ‘não-humana’, o liga harmoniosamente a outros ciclos, ajudando a formar com eles uma ‘cadeia’ maior, aquela que algumas tradições orientais chamam a “cadeia dos mundos”, onde a ordem da manifestação universal se integra passo a passo.
¹ Isto não ocorre sem causar alguns mal-entendidos: assim, vimos alguns alegarem relacionar o Talmude com a ‘Cabala’, entendida no sentido exotérico; na verdade, o Talmude é ‘tradição’, mas puramente exotérica, religiosa e legal.
² Chamamos a atenção para o facto de estas duas línguas, que têm a maioria das suas raízes comuns entre si, poderem muito frequentemente ser esclarecidas uma pela outra.
³ Daí a palavra qadam significar ‘pé’, ou seja, aquilo que se usa para caminhar.
⁴ Al-Insān al-Qadīm, que quer dizer o ‘Homem Primordial’, é, em árabe, uma das designações do ‘Homem Universal’ (sinónimo de al-Insān al-Kāmil, que é literalmente o ‘Homem Perfeito’ ou ‘Homem Completo’): este é exatamente o Adam Qadmon hebraico.(323) É curioso notar que Cristo é por vezes chamado Oriens; esta designação pode, sem dúvida, ser relacionada com o simbolismo do sol nascente; mas, devido aos duplos significados que aqui indicamos, é possível que ela deva também, e especialmente, aproximá-lo do hebraico Elohi Qedem, ou da expressão que designa o Verbo como o ‘Ancião dos Dias’, ou seja, Aquele que está antes dos dias, ou o Princípio dos ciclos de manifestações, representado simbolicamente como ‘dias’ por várias tradições (‘dias de Brahma’ na tradição hindu, ‘dias da criação’ no Génesis hebraico).
⁵ É curioso notar que Cristo é por vezes chamado Oriens; esta designação pode, sem dúvida, ser relacionada com o simbolismo do sol nascente; mas, devido aos duplos significados que aqui indicamos, é possível que ela deva também, e especialmente, aproximá-lo do hebraico Elohi Qedem, ou da expressão que designa o Verbo como o ‘Ancião dos Dias’, ou seja, Aquele que está antes dos dias, ou o Princípio dos ciclos de manifestações, representado simbolicamente como ‘dias’ por várias tradições (‘dias de Brahma’ na tradição hindu, ‘dias da criação’ no Génesis hebraico).